"Latin American Assault" - Dezembro de 2009


12 de dezembro de 2009 - VENOM em SCS

DIA DA TOSQUEIRA!!

Chegando a São Caetano do Sul por volta das 18 hs, me dirigi ao Victoria Hall, (na verdade, Victoria Hell, por um dia). O movimento ainda era bastante fraco, mas após cerca de 03 minutos, eu e uns poucos privilegiados que já estavam lá pudemos escutar a intro do Venom, aquela famosa "Ladies and Gentlemen...". Era a produção testando o som. E estava realmente alto. Do bar, localizado do outro lado da rua, era possível de ser ouvido.

Encontro um casal e alguns velhos amigos de shows, e resolvemos fazer um lanche no Shopping, localizado na rua do Victoria Hall. Ao ver papai noel, alguém teve a infeliz ideia de agradecer pelo presente antecipado de natal, o que resultou numa das fotos mais toscas da história do ABC paulista:

Venom, pela segunda vez no Brasil, pela segunda vez em dezembro...
tive que agradecer...reparem como em São Caetano o bom velhinho
é moreno, baixo, não tão gordo, e usa óculos!


Quando deixamos o shopping, de volta ao Victoria Hall, a noite já havia caído em SCS. E a expectativa parecia tomar conta das pessoas que chegavam de toda a parte do país, para o evento do ano. Muitos iriam ver o Venom pela primeira vez, outros esperavam desde 1986 pelo retorno dos criadores do Metal Extremo. A acanhada fachada do Victoria Hall, com o logo da banda e os fãs alucinados chegando, trouxe imediatamente à lembrança as imagens iniciais do clássico vídeo Combat Tour, quando Venom, Slayer e Exodus dividiram o palco do Studio 54, no meio dos anos 80.

Atmosfera anos 80 total

Mais encontros com pessoal do Rio, Luciano, León, Afonso, Abaddon-dos-Pobres, Kerry Kiko, e com o pessoal de São Paulo, da comunidade do Venom no orkut, Andy Priest, Giovanni, Anderson, Júlio, Milena, Maurício...carro vendendo Cerveja estacionado ao lado da casa de show, tocando o Possessed by Fire, do saudoso Exumer...e cada vez mais o grande momento se aproximava.

Com Andy Priest, Glen Benton e Iceman, autor da frase "melhor atravessarem a rua..."

Desta vez não assisti às bandas de abertura. Por volta de 23h 30 min, o público já tomava quase completamente a pista da casa de show, cuja lotação é de 4.000 pessoas. Surgem então os primeiros coros de "Venom, Venom", enquanto o último CD do Slayer, World Painted Blood, era tocado como som ambiente.

Brazilians Legions

Mais cinco ou seis minutos, as luzes se apagam completamente, com exceção de feixes vermelhos que iluminavam o palco com o nome da banda. Uma intro com um tom sombrio é iniciada, mais berros de "Venom, Venom", Danté assume seu posto na bateria e, após 02 intermináveis minutos, a advertência mais esperada dos últimos 23 anos ecoa em um volume espantoso:

"LADIES AND GENTLEMEN...
FROM THE VERY DEPTHS OF HELL...
VENOOOOOOOOOOOOOOOOOM...."

Rage e Cronos entram, cada um por um lado do palco...o playback dos primeiros ruídos de "Black Metal" anuncia a música que nomeou um estilo inteiro. Êxtase total, público cantando o refrão, felicidade estampada na cara de todos os presentes! Ao final desta, Cronos apresenta a banda, e os acordes de "Welcome to Hell" aparecem, faixa que batiza o disco mais influente e inovador da história da música. Vale notar que "Welcome to Hell" foi tocada na velocidade original do disco, diferente, por exemplo, do que ocorre na veloz versão do vídeo ao vivo de 85, em Londres.

Saudação de Cronos aos brasileiros: fim da espera de 23 anos

Primeira comunicação de Cronos com a platéia, e então "Bloodlust" é anunciada. Rodas e mais rodas são abertas, o Victoria Hall parecia mais um liquidificador. A próxima, "Antechrist", veio comprovar que a maioria gostou muito do disco Metal Black, e outra recente, "Straight to Hell" foi emendada na sequência.

Cronos começa a tocar frases de baixo, e anuncia "Countess Bathory", sem dúvida um dos pontos altos da noite. Essa é daquelas faixas queridas mesmo por pessoas que não gostam de Venom, tamanho seu grau de aceitação, algo como corre com a "I Love it Loud", do Kiss (todo mundo conhece alguém que diz "não gosto do Kiss, mas gosto da "I Love it Loud"").

A euforia neste momento era total. Mesmo assim, não dá para deixar de mencionar que Cronos, com a cirurgia que fez no pescoço há cerca de 05 anos, após ter sofrido queda enquanto praticava alpinismo, já não se movimenta mais como antes, nem tampouco faz mais aqueles headbanging-hélice, tão comuns nos antigos vídeos do Venom. Mas ninguém perecia realmente se importar tanto com aquilo, afinal, sua simples presença de palco ainda o credencia como um das maiores lendas do Metal.

"Counteeeeeess...Bathory...countess"

O altíssimo som do Victoria Hall acabou embolando muito os instrumentos, mas essa tosqueira sonora sempre foi inerente aos shows do Venom, na verdade serve até como diferencial. O grande problema era o fato de o volume da voz estar mais baixo do que dos outros instrumentos. "7 Gates of Hell" é a próxima, havia certa dúvida quanto a presença ou não desta música na atual turnê, pois a mesma tem entrado e saído dos setlists nos últimos tempos. Felizmente foi mantida , esta é um ótimo exemplo do que é o som e a proposta do Venom. Seus últimos acordes deram início à "Hell", faixa-título do último álbum, esta mais cadenciada, mas muito boa também. Aliás, tocaram todas as faixas-títulos da fase com Cronos.

Cronos então se comunica com o público, menciona a tour no Brasil 23 anos atrás, fala que ficou impressionado em como os chilenos berraram no show, diz estar gostando muito da passagem pelo continente. Aproveita para frisar que será um show abordando todas as fases do conjunto, parte por parte.

A fala inicial de "Possessed", aquela com vozes de crianças, começa a ser tocada em playback. Possessed foi um disco que não teve tanto reconhecimento quando foi lançado, mas a verdade é que não fica nada a dever aos seus 3 lançamentos antecessores. Com metade da música executada, a banda a interrompe para começar um medley extraordinário, tocando trechos de "Schizo", "Live Like an Angel (Die Like a Devil)", e a inesperada "Calm Before the Storm", retornando para o veloz final de "Possessed". Simplesmente sensacional a reação do público. Quando Cronos nos deu a entrevista falando que elaborou um setlist especial para esta tour, pescando pelo menos uma música de cada disco que ele gravou com o Venom, ninguém esperava que o CBTS estivesse presente, pois este foi um disco menos agressivo que os 04 primeiros, gerando inclusive algumas críticas de seguidores mais radicais. A verdade é que CBTS traz uma mistura de Thrash Metal com Heavy tradicional, mas assim mesmo é em trabalho de alta qualidade.
rrrrrrrr
O guitarrista Rage, sangue novo no som furioso do Venom

A narração em forma de versos de"At War with Satan" então e´ iniciada, essa faixa entrou no setlist do Venom somente de uns 05 anos pra cá. Fizeram uma versão de 06 ou 07 minutos, o suficiente para nos fazer lembrar o impacto que este disco causou, com o lado A inteiro do vinil ocupado unicamente pela faixa-título.

Luzes novamente apagadas, e os sons e falas de enterro que iniciam "Buried Alive" são ejetados dos amps, para surpresa dos que, como eu, não haviam visto o setlist da excursão. Aliás, a inclusão de todas estas introduções em playback, ("Black Metal, "Possessed", "At War With Satan" e "Buried Alive"), reproduzindo ao máximo os efeitos de estúdio, serviu para criar uma atmosfera especial no show, e mostrou o cuidado e a dedicação da banda com esta tour . Voltando, o Venom sempre declarou que a música não precisa necessariamente ser rápida para ser pesada, e "Buried Alive" é uma mostra clara disso. Foi assustador ver toda a platéia gritando o refrão, "convoquem os mortos...".

Adrenalina total

Danté, baterista que estreou nesta turnê, reproduziu com perfeição as partes gravadas por Antton, e pareceu ter que se conter para não extrapolar o estilo mais simples das músicas gravadas por Abaddon, mas a verdade é que seu desempenho superou as expectativas. O curioso foi notar que ele usou um kit de bateria relativamente pequeno e simples, e conseguiu fazer viradas muito bem elaboradas, o que serviu de diferencial em relação ao Abaddon, que usava um muro gigantesco em forma de kit (mal dava para ser visto nos shows), e acabava batendo sempre nos mesmos instrumentos.

Direto do palco para o site, um festival de clássicos...mas faltou "Die Hard"

O repertório volta à fase mais recente do conjunto, com "Evil One", do álbum de reunião Cast in Stone, a faixa-título do álbum Ressurection, e a rápida "Burn in Hell", do Metal Black, ambas bem-recebidas pelo público. Ressurection inclusive foi um álbum que renovou o público da banda, sendo o primeiro disco do Venom que muita gente mais nova ouviu.

Parecia que o show caminhava pro final, quem acompanha os setlists do Venom sabe que a banda não costuma ultrapassar os 75 minutos de show. Mesmo assim, muita surpresa ainda estava por vir. A próxima foi "Warhead", outra faixa lançada somente em single, mais uma que contou com a participação intensa do público no refrão, e foi seguida pela veloz "Metal Black".

"What?" : WARHEEEEEEEEAD!!

O guitarrista Rage mostrou-se bem entrosado e mesmo satisfeito em estar em uma banda do porte do Venom, tocando para seus seguidores sulamericanos. Seu desempenho foi muito bom ao longo de toda a noite.

O bis foi outro ponto alto do show: A intro (mais uma!) de "In League With Satan" chegou a causar calafrios nos mais desavisados. Abaddon, durante uma entrevista nos anos 80, declarou que esta intro é um trecho do filme "O Exorcista", tocado de trás pra frente, mas nunca dava para saber quando o cara falava sério ou não. Essa é daquelas músicas que raramente são tocadas ao vivo, mas mesmo assim é uma unanimidade entre o público de Black Metal. Totalmente inusitado o fato de o Venom, em pleno ano de 2009, ter tocado em um mesmo show as 02 músicas do single que foi o primeiro registro do grupo, "Live Like an Angel/In League With Satan", pois nem mesmo nos vídeos clássicos dos shows nos anos 80 estas músicas apareciam.

Quando Cronos começa a socar seu baixo, introduzindo "Witching Hour", uma mistura de sentimentos pôde ser percebida no Victoria Hall. Euforia, pois viria pela frente um dos maiores clássicos do Metal Extremo, e tristeza, pois era evidente que o show estava em seu último ato. Rodas e mais rodas foram abertas na pista., pessoas emocionadas, novos fãs finalmente entendendo o que é Black Metal, meninas assustadas, enfim, um pouco de tudo foi presenciado.

"Obrigado, São Paulo!! We will retuuuuurn!!"

A banda se despede, com o famoso "we will return", deixando em dúvida se foi um mero clichê, se realmente há planos nesse sentido, enfim...voltam para agradecer ao público...luzes acesas...

Visão da pista, calm AFTER the storm...

O que ficou evidente foi a satisfação e a empatia mútua entre banda-público. Senti falta do solo de baixo, com aqueles famosos "puxadões" do Cronos, e de "Too Loud", mas a ausência de "Die Hard" foi a mais sentida. Esta música fala sobre as Legiões, os seguidores do Venom, fãs de ferro e aço, difíceis de serem derrotados. Pessoas que preservam suas convicções musicais, independente de todas as adversidades e da dificuldade de se encontrar Cds e informações de bandas que, como o Venom, não contam (felizmente) com nenhum apoio da mídia capitalista. E para nós, povos da América latina, essas dificuldades certamente são sempre triplicadas. "Die Hard" criaria uma atmosfera toda especial nos shows por aqui.

BACKSTAGE



Danté falou que após o lançamento do novo álbum, em 2010, pode ser que eles voltem...mas o cara estava bebendo quando disse isso...


Rage e eu ficamos "cantando" os riffs do álbum Hell, como "Armageddon" e "Evil Perfection"


Falar o quê? Cronos, responsável pela maior revolução do mundo do Heavy Metal. Disse novamente que aprecia o site Venom Brasil, e agradeceu pelo apoio de todos os sulamericanos

 

Escrevendo esta resenha, 02 dias após o show, percebo o quanto o setlist foi bem elaborado, e tudo pareceu fazer sentido. Tocadas lado a lado, a tosqueira ingênua dos 04 primeiros discos, a produção mais bem cuidada do Ressurection, a tosqueira proposital do Metal Black, as mais recentes do álbum Hell, a fase Heavy mais tradicional do Calm Before the Storm, enfim, tudo jogado num só liquidificador teve como resultado um ótimo show.

Que não demorem mais 23 anos para voltar!

AGRADECIMENTOS: Társis Alberto (fotos no palco) , Júlio e Milena (backstage)