"Latin
American Assault" - Dezembro de 2009
|
12 de dezembro de
2009 - VENOM em SCS
DIA DA TOSQUEIRA!!
Chegando a São Caetano do Sul por volta das 18 hs, me dirigi ao Victoria Hall, (na verdade, Victoria Hell, por um dia). O movimento ainda era bastante fraco, mas após cerca de 03 minutos, eu e uns poucos privilegiados que já estavam lá pudemos escutar a intro do Venom, aquela famosa "Ladies and Gentlemen...". Era a produção testando o som. E estava realmente alto. Do bar, localizado do outro lado da rua, era possível de ser ouvido. Encontro
um casal e alguns velhos amigos de shows, e resolvemos fazer um lanche
no Shopping, localizado na rua do Victoria Hall. Ao ver papai noel, alguém
teve a infeliz ideia de agradecer pelo presente antecipado de natal, o
que resultou numa das fotos mais toscas da história do ABC paulista: Desta vez
não assisti às bandas de abertura.
Por volta de 23h 30 min, o público já tomava quase completamente a pista
da casa de show, cuja lotação é de 4.000 pessoas. Surgem então os primeiros
coros de "Venom, Venom", enquanto o último CD do Slayer, World Painted
Blood, era tocado como som ambiente. Mais cinco ou seis minutos, as luzes se apagam completamente, com exceção de feixes vermelhos que iluminavam o palco com o nome da banda. Uma intro com um tom sombrio é iniciada, mais berros de "Venom, Venom", Danté assume seu posto na bateria e, após 02 intermináveis minutos, a advertência mais esperada dos últimos 23 anos ecoa em um volume espantoso: "LADIES
AND GENTLEMEN... Rage e Cronos
entram, cada um por um lado do palco...o playback dos primeiros ruídos
de "Black Metal" anuncia a música que nomeou um estilo inteiro. Êxtase
total, público cantando o refrão, felicidade estampada na cara de todos
os presentes! Ao final desta, Cronos apresenta a banda, e os acordes de
"Welcome to Hell" aparecem, faixa que batiza o disco mais influente e
inovador da história da música. Vale notar que "Welcome to Hell" foi tocada
na velocidade original do disco, diferente, por exemplo, do que ocorre
na veloz versão do vídeo ao vivo de 85, em Londres. Primeira comunicação de Cronos com a platéia, e então "Bloodlust" é anunciada. Rodas e mais rodas são abertas, o Victoria Hall parecia mais um liquidificador. A próxima, "Antechrist", veio comprovar que a maioria gostou muito do disco Metal Black, e outra recente, "Straight to Hell" foi emendada na sequência. Cronos começa a tocar frases de baixo, e anuncia "Countess Bathory", sem dúvida um dos pontos altos da noite. Essa é daquelas faixas queridas mesmo por pessoas que não gostam de Venom, tamanho seu grau de aceitação, algo como corre com a "I Love it Loud", do Kiss (todo mundo conhece alguém que diz "não gosto do Kiss, mas gosto da "I Love it Loud""). A euforia
neste momento era total. Mesmo assim, não dá para deixar de mencionar
que Cronos, com a cirurgia que fez no pescoço há cerca de 05 anos, após
ter sofrido queda enquanto praticava alpinismo, já não se movimenta mais
como antes, nem tampouco faz mais aqueles headbanging-hélice, tão comuns
nos antigos vídeos do Venom. Mas ninguém perecia realmente se importar
tanto com aquilo, afinal, sua simples presença de palco ainda o credencia
como um das maiores lendas do Metal. O altíssimo som do Victoria Hall acabou embolando muito os instrumentos, mas essa tosqueira sonora sempre foi inerente aos shows do Venom, na verdade serve até como diferencial. O grande problema era o fato de o volume da voz estar mais baixo do que dos outros instrumentos. "7 Gates of Hell" é a próxima, havia certa dúvida quanto a presença ou não desta música na atual turnê, pois a mesma tem entrado e saído dos setlists nos últimos tempos. Felizmente foi mantida , esta é um ótimo exemplo do que é o som e a proposta do Venom. Seus últimos acordes deram início à "Hell", faixa-título do último álbum, esta mais cadenciada, mas muito boa também. Aliás, tocaram todas as faixas-títulos da fase com Cronos. Cronos então se comunica com o público, menciona a tour no Brasil 23 anos atrás, fala que ficou impressionado em como os chilenos berraram no show, diz estar gostando muito da passagem pelo continente. Aproveita para frisar que será um show abordando todas as fases do conjunto, parte por parte. A
fala inicial de "Possessed", aquela com vozes de crianças, começa a ser
tocada em playback. Possessed foi um disco que não teve tanto reconhecimento
quando foi lançado, mas a verdade é que não fica nada a dever aos
seus 3 lançamentos antecessores. Com metade da música executada,
a banda a interrompe para começar um medley extraordinário, tocando trechos
de "Schizo", "Live Like an Angel (Die Like a Devil)", e a inesperada "Calm
Before the Storm", retornando para o veloz final de "Possessed". Simplesmente
sensacional a reação do público. Quando Cronos nos deu a entrevista falando
que elaborou um setlist especial para esta tour, pescando pelo menos uma
música de cada disco que ele gravou com o Venom, ninguém esperava que
o CBTS estivesse presente, pois este foi um disco menos agressivo que
os 04 primeiros, gerando inclusive algumas críticas de seguidores mais
radicais. A verdade é que
CBTS traz uma mistura de Thrash Metal com Heavy tradicional, mas assim
mesmo é em trabalho de alta qualidade. A narração em forma de versos de"At War with Satan" então e´ iniciada, essa faixa entrou no setlist do Venom somente de uns 05 anos pra cá. Fizeram uma versão de 06 ou 07 minutos, o suficiente para nos fazer lembrar o impacto que este disco causou, com o lado A inteiro do vinil ocupado unicamente pela faixa-título. Luzes novamente
apagadas, e os sons e falas de enterro que iniciam "Buried Alive" são
ejetados dos amps, para surpresa dos que, como eu, não haviam visto
o setlist da excursão. Aliás, a inclusão de todas
estas introduções em playback, ("Black Metal, "Possessed",
"At War With Satan" e "Buried Alive"), reproduzindo
ao máximo os efeitos de estúdio, serviu para criar uma atmosfera
especial no show, e mostrou o cuidado e a dedicação da banda
com esta tour . Voltando, o Venom sempre declarou que a música não precisa
necessariamente ser
rápida para ser pesada, e "Buried Alive" é uma mostra clara disso. Foi
assustador ver toda a platéia gritando o refrão, "convoquem os mortos...". Danté, baterista
que estreou nesta turnê, reproduziu com perfeição as partes gravadas
por Antton, e pareceu ter que se conter para não extrapolar o estilo mais
simples das músicas gravadas por Abaddon, mas a verdade é que seu desempenho
superou as expectativas. O curioso foi notar que ele usou um kit de bateria
relativamente pequeno e simples, e conseguiu fazer viradas muito bem elaboradas,
o que serviu de diferencial em relação ao Abaddon, que usava um muro gigantesco
em forma de kit (mal dava para ser visto nos shows), e acabava batendo
sempre nos mesmos instrumentos. O repertório volta à fase mais recente do conjunto, com "Evil One", do álbum de reunião Cast in Stone, a faixa-título do álbum Ressurection, e a rápida "Burn in Hell", do Metal Black, ambas bem-recebidas pelo público. Ressurection inclusive foi um álbum que renovou o público da banda, sendo o primeiro disco do Venom que muita gente mais nova ouviu. Parecia que
o show caminhava pro final, quem acompanha os setlists do Venom sabe que
a banda não costuma ultrapassar os 75 minutos de show. Mesmo assim, muita
surpresa ainda estava por vir. A próxima foi "Warhead", outra faixa lançada
somente em single, mais uma que contou com a participação intensa do público
no refrão, e foi seguida pela veloz "Metal Black". O guitarrista
Rage mostrou-se bem entrosado e mesmo satisfeito em estar em uma banda
do porte do Venom, tocando para seus seguidores sulamericanos. Seu desempenho
foi muito bom ao longo de toda a noite. Quando Cronos
começa a socar seu baixo, introduzindo "Witching Hour", uma mistura de
sentimentos pôde ser percebida no Victoria Hall. Euforia, pois viria pela
frente um dos maiores clássicos do Metal Extremo, e tristeza, pois era
evidente que o show estava em seu último ato. Rodas e mais rodas foram
abertas na pista., pessoas emocionadas, novos fãs finalmente entendendo
o que é Black Metal, meninas assustadas, enfim, um pouco de tudo foi presenciado. A banda se
despede, com o famoso "we will return", deixando em dúvida se foi um mero
clichê, se realmente há planos nesse sentido, enfim...voltam para agradecer
ao público...luzes acesas... O que ficou evidente foi a satisfação e a empatia mútua entre banda-público. Senti falta do solo de baixo, com aqueles famosos "puxadões" do Cronos, e de "Too Loud", mas a ausência de "Die Hard" foi a mais sentida. Esta música fala sobre as Legiões, os seguidores do Venom, fãs de ferro e aço, difíceis de serem derrotados. Pessoas que preservam suas convicções musicais, independente de todas as adversidades e da dificuldade de se encontrar Cds e informações de bandas que, como o Venom, não contam (felizmente) com nenhum apoio da mídia capitalista. E para nós, povos da América latina, essas dificuldades certamente são sempre triplicadas. "Die Hard" criaria uma atmosfera toda especial nos shows por aqui. BACKSTAGE
Escrevendo esta resenha, 02 dias após o show, percebo o quanto o setlist foi bem elaborado, e tudo pareceu fazer sentido. Tocadas lado a lado, a tosqueira ingênua dos 04 primeiros discos, a produção mais bem cuidada do Ressurection, a tosqueira proposital do Metal Black, as mais recentes do álbum Hell, a fase Heavy mais tradicional do Calm Before the Storm, enfim, tudo jogado num só liquidificador teve como resultado um ótimo show. Que não demorem mais 23 anos para voltar! AGRADECIMENTOS: Társis Alberto (fotos no palco) , Júlio e Milena (backstage)
|